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05/03/2010

AS DOBRAS QUE A VIDA FAZ...

dObras... Este sugestivo termo tão deleuziano é o título de uma revista quadrimestral publicada pela Estação das Letras e Cores. E, dentro do panorama híbrido de nosso mundo ainda au début-de-siècle, ela soma linguagem acadêmica com colunas de moda no mais alto nível de sabor e conteúdo. Como diz seu slogan, "uma revista de moda mas não só, acadêmica mas nem tanto".
dObras permite múltiplos olhares, tantos são os olhares que a compõem, em suas subterrâneas redes inter e hipertextuais.

Delicada e ousada, a revista nos faz pensar por várias vezes em Deleuze, esse "pensador jubiloso da 'confusão' do mundo, segundo Alain Badiou.

Ela vai da construção à desconstrução, do clássico à última tendência, apontando e, sobretudo, discutindo, abrindo caminho para a análise. Vários de nossos mestres teriam prazer em lê-la: Nietzsche, Bergson, Freud, Lacan, Wittgenstein (e até mesmo Jung, que alguns gostam de deixar de fora da festa)... Mas não se trata de publicação para quem faz carão quando entra na primeira sessão do filme que homenageia Godard. Pelo contrário: dObras agrada a toda gente: gente antenada a vários hemisférios geográficos e cerebrais, gente de moda e de modas, gente de territórios plurais, que vive em mil platôs...


dObras

Estação das Letras e Cores

Tel.: (11) 4191-8668


OS CAMINHOS DO PEQUENO GRANDE PAQUIDERME...



Este elefante nos enche de orgulho (a mim, à Ana Cândida, da MUSA, aos seus colaboradores) e vai, com peso e graça, conquistando saaras e patagônias. Entrou no coração dos mineirinhos de Belo Horizonte, minha amada terra emprestada, onde vivi por doze anos, assim que saí do Sul das Gerais. E lá ele também reside hoje, livre, com sua insaciável curiosidade, dizendo a todos que é preciso ler mais, que é preciso conhecer Kipling, que é preciso soltar os elefantes aprisionados nos circos e deixá-los seguirem sua natureza inteligentemente indomável.

"O Elefante Infante" se multiplicou e multiplicará ainda mais. E já deixa frutos que, em breve, se farão colher, na forma de outros bichos, outras histórias, inventadas pelo grande mestre Rudyard. É um prazer trabalhar com ele. É uma dádiva ver este Elefante - gigante, apesar de infante - deixando seus rastros pelo mundo...

SOLTANDO O LOBISOMEM... e... UM POUCO MAIS DE JUNG

Soltando o lobisomem...

Ontem, na oficina do ônibus-biblioteca, entramos no mundo sombrio (e também engraçado) dos lobisomens e de outras assombrações a partir do volume 1 de minha série "Contos Para Não Dormir", pela Biruta. O livro se chama "Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha" e sempre atraiu muito a garotada. Nele, André, um garoto de cidade grande que passa férias em um sítio, conversa com seu avô - durante uma noite fria - sobre as mais diversas assombrações.
A leitura foi coletiva. O livro foi manuseado, folheado, decodificado. As imagens chamaram a atenção. E houve trechos preferidos, que despertaram aquela deliciosa curiosidade que envolve e acalenta a leitura prazerosa.
Do trabalho com o objeto-livro, como um todo, passamos a conversar sobre os personagens, sobre sua construção e particularidades.
(As atividades têm sido frutíferas: há crianças que já estão escrevendo seus livros em casa.)
Do personagem, pulamos à persona: a máscara. Caminho inverso. Busca original: de onde tudo vem. Bendita a Hélade que nos deu tanto!
A possibilidade de se criar máscaras semelhantes aos monstrengos e sair por aí colocando pra fora as nossas "brabezas" de forma inofensiva é muito saudável mesmo. Todo bom psicólogo recomenda.
Principalmente quando se estuda em uma escola em que a professora, quando não tem criatividade suficiente para inventar uma lição de casa, decreta uma sentença de morte: escrever os números, letrinha por letrinha, de zero a dois mil, em infinita lista (foi o que o garoto da foto me contou). Gostaria de saber se ela ao menos se dá ao trabalho de corrigir tamanho disparate (sem aquela de simplesmente dar um visto borrado no canto do caderno e pronto). Ou se é pura tortura mesmo, daquelas que deixam calos no canto do dedo.
Não tem quem não queira virar lobisomem, concorda?

***

Um pouco mais de Jung...

O fenômeno ao qual Jung chamou de persona é de natureza coletiva. Usar uma persona nos facilita as relações com o estranho mundo social que nos rodeia e nos orienta quanto à decisão de qual papel assumir a cada momento. Assim, cabe a um atendente utilizar (mas nem sempre o faz) a máscara da cortesia e da disponibilidade, enquanto cabe a um representante da lei empregar a máscara da seriedade e da autoridade. Vemos, assim, que essa coisa de máscara não é de todo ruim, pelo contrário. Se não usássemos máscara alguma, o mundo seria um pandemônio maior do que já é em rudezas e violências de toda ordem.
Mas há pessoas que se descuidam das “máscaras” (plural, pois as que usamos são muitas) e se tornam infelizes em suas relações humanas: são aquelas que dizem o que pensam, quando querem, onde querem, para quem querem. Nada lhes parece mais genuíno, nenhuma necessidade lhes soa mais premente do que aquela de colocar para fora os desaforos que lhes vão dentro.
No teatro grego, persona era a máscara teatral, que escondia quem realmente estava agindo. O objetivo, além da melhor representação do personagem, era amplificar a voz aos ouvintes nas grandes arenas (personare = soar através de). Daí advém o termo “personalidade”, que é uma construção psíquica, também uma espécie de máscara – ou um coletivo desta –, parte de nossa pessoa. E aprendemos que é cuidadoso não julgar alguém pela personalidade, pois há quem só utilize máscaras rígidas, pesadas, inconvenientes, mas pode ocultar – e certamente oculta - uma leveza reprimida.
Poderíamos pular para um outro conceito do bom Jung, o de “sombra” – um dos mais interessantes, mas vou ficar hoje pelas beiras da persona. Está de boníssimo tamanho.

01/03/2010

CHIMAMANDA ADICHIE: O PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA

A legenda não está muito fiel, mas pode-se ter uma ideia do que esta escritora nigeriana quis transmitir...

AMOR AOS LIVROS

ZERO HORA
01 de março de 2010 N° 16261 - GENTE

O adeus ao bibliófilo José Mindlin

Aos 95 anos, ele tinha em sua casa, em São Paulo, a maior coleção de livros particular do país, que havia sido doada à USP

José Ephim Mindlin ergueu um império literário em sua própria casa. Ele dedicou sua vida à busca por obras raras em viagens pelo Brasil e Exterior. A procura incansável acabou ontem, quando o bibliófilo e empresário morreu em São Paulo, aos 95 anos.

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Mindlin estava internado havia aproximadamente um mês no Hospital Albert Einstein para tratar uma pneumonia. O enterro ocorreu no Cemitério Israelita da Vila Mariana, zona sul da cidade. Casado por 68 anos com Guita Mindlin, já falecida, teve quatro filhos: a antropologa Betty, a designer Diana, o engenheiro Sérgio e a socióloga Sônia.

Nascido em São Paulo, em 8 de setembro de 1914, era filho de judeus nascidos em Odessa (Ucrânia), que vieram para o Brasil. Estudou Direito na Universidade de São Paulo (USP) e fez cursos de extensão universitária na Universidade de Columbia, em Nova York. Advogou até 1950, quando deixou a atividade para fundar a empresa Metal Leve SA, que se destacou no setor de peças para automóveis e hoje é controlada pela multinacional alemã Mahle. Permaneceu na companhia até 1996.

Aos 32 anos, financiado por um empresário, conseguiu um sócio e fundou a livraria Parthenon, em São Paulo. Iniciou assim seu périplo em busca de obras raras para sua biblioteca particular.

Acervo inclui raridades de autores nacionais

A paixão pela literatura fez com que acumulasse cerca de 40 mil volumes, colecionados desde os anos 30. Era considerado o dono da maior biblioteca privada do país. O acervo inclui raridades, como a primeira edição de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, documentos do século 16 com as primeiras impressões que padres jesuítas tiveram do Brasil, jornais anteriores à Independência e manuscritos que resgatam a gênese literária de grandes obras, como Sagarana, de Guimarães Rosa, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Ele doou grande parte do seu acervo para a USP, transformando-o na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

Mindlin ocupou a cadeira 29 da ABL. Foi eleito em 20 de junho de 2006, sucedendo o escritor Josué Montello. É o autor de Uma Vida entre Livros – Reencontros com o Tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Em 2007, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Passo Fundo (UPF).

Em nota, o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marcos Vilaça, afirmou que “Mindlin era um emblema do livro, tinha com ele uma relação orgânica”.



MultimídiaMindlin também se destacou como empresário do setor de autopeças, tendo fundado a Metal Leve.


24/02/2010

23/02/2010

CONTOS CUMULATIVOS

Dois excelentes exemplos de contos cumulativos...




19/02/2010

COMO (NÃO) FORMAR LEITOR



Depois de ter lido o texto acima, veja se concorda comigo...
Vou em defesa de "Iracema", "Senhora" e dos outros livros... mas concordo com o raciocínio geral do Zuenir. Sim, acho que os alunos do ensino médio não têm preparo para digerirem, por si mesmos, os livros mencionados. Eles precisam de orientação do professor, de estímulo, de muitos elementos que ajudem a tornar a leitura dos títulos citados uma leitura prazerosa. Do contrário, sairão odiando os autores, a disciplina Literatura (aversão esta bastante comum) e o professor. E, dali em diante, os estragos podem ser irreparáveis: o preconceito contra a literatura nacional pode ser tamanho que jamais ousarão pegar outro de nossos clássicos.
A escola não consegue concorrer com computador, internet, jogos virtuais, cinema em 3D, viagens para o exterior. Isso é verdade (pelo menos para a classe média, média alta e alta). E, ainda por cima, conteúdos são despejados de maneira desconexa sobre os alunos, esperando que eles façam o melhor percurso possível...
Mas daí a desqualificar os livros citados, sobretudo os de José de Alencar, não acho justo. "Senhora" e "Iracema" são excelentes exemplares de dois momentos do grande autor cearense: o romance social urbano e o romance indianista. Há talento refletido em ambas as obras. Há estilo, há pesquisa, há reflexos de uma época. O que não se pode é reduzi-las aos quadros de análise histórica e estilística dos estilos de época - uma forma que engessa toda possibilidade de fruição do prazer da leitura.
Está aí um desafio e tanto aos professores e à escola: o que fazer com a literatura brasileira e como estimular a meninada à leitura...

13/02/2010

NO PAÍS EM QUE CRIANÇA VIRA MADRINHA DE BATERIA...


Tem uma coisa errada nisso. Claro que tem.
No início, todo mundo comentou. Agora, parece que se conformou. Até esqueceu. A mídia só faz a cobertura dos desfiles.
A gente tenta racionalizar: criança não deve ser exposta dessa forma, exercendo uma função que tradicionalmente tem relação com sensualidade e erotismo.
Ainda mais uma menina de sete anos!
Ainda mais em frente a uma escola de samba, cujo desfile será exibido para não sei quantos países!
Logo em um mundo em que a coisa mais fácil que existe é roubo e reprodução ilegal de imagens. Se fosse em outro planeta, mas no nosso a coisa anda complicada.
É, tem isso tudo.
Mas tem algo a mais errado. Algo que não foi racionalizado, que não se trouxe à consciência. Agora tento trazer.
Pensei aqui com meus botões junguianos qual seria essa coisa. E não é que está no próprio nome? É tão óbvio: muitos contos de fadas têm.
Pronto, vamos lá: criança não deve ser madrinha de nada. Ainda não é mãe (madrinha é godmother, em inglês), ainda não é mulher adulta. A responsabilidade e a visibilidade que lhe impõem são destruidoras. É como criar um teatro mundial, soltar um ser humano de sete anos no palco e dizer: agora, atue! (Jung, você faz falta como pão na cozinha psicológica de nosso povo!)
Criança, no máximo, é afilhada. Só vira outra coisa no mundo da imaginação, da leitura prazerosa. E desfile na Marquês de Sapucaí não é conto de fadas. E o que se lê na avenida é semiótico demais para olhos ingênuos.
Parece que é só diversão. Parece. Mas não é.
Uma menina madrinha abre mais senões daqui pra frente. Por exemplo: “menina rainha” (de um ritmo musical violento que hoje todo mundo defende), “menina madrasta” (sabe-se lá de quem), “menina-mãe” (e já são tantas!), “menina que é vendida no calçadão da praia”. Tantas meninas...
Queira o Deus de Jung que fique apenas como encanto e inocência a história dessa menina madrinha de bateria de uma grande escola de samba. Que ela saia ilesa, que ela saia criança dessa situação que o mundo dos adultos criou para ela. Que depois ela se debruce sobre seus livros de história e sonhe em ser uma princesa encantada e, quem sabe, invente uma roupa de papel crepom e glíter.
Apenas isso. E seja feliz.
Por enquanto – e para sempre – continuarei com Jung.