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07/06/2010

ELEFANTES E LOBISOMENS: ATIVIDADE NO JARDIM MIRIAM

Reproduzo aqui o texto e as fotos do bibliotecário João B. A. Neto, sobre a atividade realizada no dia 6 de junho de 2010, no Jardim Miriam:

"ADRIANO MESSIAS: HISTÓRIAS SOBRE ELEFANTE CURIOSO, LOBISOMEM E ASSOMBRAÇÕES. E MAIS UM BELO DIA FRIO SE ABRIU, EM JUNHO...

E a todo vapor, nosso amarelinho chega ao Jardim Miriam, onde vai acontecer a Oficina Literária com o escritor Adriano Messias...

Adriano inicia sua oficina contando a bela história do Elefante Infante, sempre muito curioso.

As duas meninas, após escolherem seus livros, ficaram sabendo sobre o risco de morte que correu o pequeno elefante. Elas desenharam elefantes e os pintaram, com cores quentes...




Para os meninos, além de contar a mesma história, Adriano falou sobre lobisomem, fantasmas, incluindo a Velha de um Olho Só, personagem de seu próximo livro. E eles não se intimidaram: também contaram histórias que nos fazem tremer de medo...

11/03/2010

ELEFANTICES NA VILA ANDRADE

Ontem, fiz mais uma oficina literária a partir do querido e sorridente livro "O Elefante Infante", um forte colosso que o Rudyard Kipling deixou para o mundo. As crianças correram à mesa de atividades, malgrado o calor. Uma sombra fresca, quase como a de uma savana africana margeada por árvores-da-febre, propiciou o alívio, junto ao vento, ora brando, ora brisa.



A técnica que escolhi foi "ler o livro" por meio de gravuras que eu mesmo fiz em papéis cartonados, mostrando, uma a uma, passagens do belo conto. Em seguida, falamos sobre elefantes, sobre Rudyard, sobre o motivo de ele ter feito aquela história, e para quem ele fez (sua filha muito doente que acabou morrendo de um problema pulmonar).
Da história, o pulo para dentro do livro: suas gravuras ressaltavam elefantes vermelhos. Graça e leveza.
A curiosidade de uma das meninas participantes:
- Por que um livro em três colunas paralelas, cada coluna de uma cor?
- Ah... mas é um livro trilíngue. - expliquei...
Crianças da França, de Moçambique e da Austrália conseguiriam ler perfeitamente aquele livro. Portas. As línguas são portas, as palavras são as folhas secas que entram quando as abrimos, outonais, festivais.


Daí surgiu a vontade de estruturar um elefante. Colocar de dentro para forma um paquiderme. Desenhá-lo. Delineá-lo e dividi-lo em tantos fragmentos quantos seriam os retalhos alinhavados que dão forma e fruto às nossas vidas. Somos deliciosamente uma colcha de retalhos em fuxico - chita e chitão -, flores grandes e escancaradas, boiando sobre a margem do grande rio Limpopo.



Cada elefante foi embora com seu dono.
- E quando você volta?
- Ah, eu volto um dia, de repente... Mas se não, virá outra pessoa, com outro bicho, ou talvez para falar de estrelas, ou brincar de paginar a vida.

Ressalto o menino Jackson, 9 anos, ainda incapaz de ler, mas muito alegre, conversador, bom papo... Carregava dentro da mochila um saco com pasteizinhos de feira, aqueles pastéis-de-vento, alguns de brisa suave, que a gente compra pra tomar com cafezinho forte à tarde. Pois não é que o tal menino queria que eu levasse o saco de pastéis para casa?
Quando crianças, somos generosos. Crescemos e nos esquecemos da espontaneidade, da pureza, do momento presente - que é o bom.
Os pastéis ficaram com ele, junto ao elefante, junto ao porta-retratos, junto às revistas que ganhou para tentar, mais tarde - quem sabe... - ler. E ler muito.

07/03/2010

OFICINAS LITERÁRIAS: LER, ENTENDER, INTERPRETAR E CRIAR

(Reproduzo aqui texto e fotos que saíram no blog do ônibus-biblioteca. Texto de João B. A. Neto e fotos de Maria de Fátima.)

{ Destacamos aqui dois momentos distintos de um Ônibus-Biblioteca: primeiro, na garagem, ele repousa entre iguais, lá no Canindé. Segundo, vai fazer a diferença num outro cenário, chamado de roteiro, no qual ele se torna único como figura central na atividade que desempenha: espalhar, a cada dia, o gosto pela leitura em diferentes locais da cidade...

Pronto: eis o cenário já montado, com o atendente Cícero na primeira mesa. Na outra, um pequeno grupo está confabulando.

A partir desse momento, todos se tornam atores principais de uma mesma história, inclusive o nosso Ônibus. Hoje, quinta-feira, dia 4, ele está no roteiro de Vila Penteado, onde além de empréstimos de livros, revistas etc, haverá oficinas literárias com Adriano Messias e Cristina Carnelós...

O experiente escritor Adriano trouxe uma ideia na cabeça: permitir que os participantes coloquem pra fora o seu lado ferinha, através de confecção de máscaras. Interessante isso, não?...
Rapidamente, o processo criativo foi iniciado, tendo como base a leitura de livro sobre lobisomens e assombrações. Ai, que arrepio me deu!!! As crianças devem ter adorado, afinal elas curtem bem esses assuntos estranhos, sombrios.

Adriano Messias autor de "Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha" orientou, com propriedade, cada ponto do processo criativo. E ninguém melhor que o autor pra falar:

"A leitura foi coletiva. O livro foi manuseado, folheado, decodificado. As imagens chamaram a atenção. E houve trechos preferidos, que despertaram aquela deliciosa curiosidade que envolve e acalenta a leitura prazerosa. Do trabalho com o objeto-livro, como um todo, passamos a conversar sobre os personagens, sobre sua construção e particularidades. (As atividades têm sido frutíferas: há crianças que já estão escrevendo seus livros em casa.)

Do personagem, pulamos à persona: a máscara. Caminho inverso. Busca original: de onde tudo vem. Bendita a Hélade que nos deu tanto! A possibilidade de se criar máscaras semelhantes aos monstrengos e sair por aí colocando pra fora as nossas "brabezas" de forma inofensiva é muito saudável mesmo."

Está aí um bonito trabalho, em que o autor não se preocupa somente com a escritura de seu livro, mas coloca o conteúdo em diferentes ângulos de interpretação, para que seu leitor possa realmente se apropriar do que foi escrito. E nada mais interativo que dialogar com o próprio autor e criar algo, simultaneamente. Essa é a proposta do Ônibus-Biblioteca!...

O dia de oficina literária em Vila Penteado foi bastante intenso. Não parou por aí. A comunidade contou também com a presença de Cristina Carnelós. Essa talentosa ilustradora é movida pelo trabalho criativo...

Tudo isso é muito nítido em suas palavras: "Trabalhei a criação de roteiros e personagens a partir de recortes de revistas. Nesta atividade, a criança recorta rostos (pessoas ou animais) que lhe interessam e cola em folhas brancas.

A partir da colagem, desenham corpos e cenários inventando simultaneamente a história e a gênese do personagem. E dou toda liberdade viu, fazem pessoas com 10 braços, pés quadrados, céu verde e amarelo, é uma farra. Ao final eles explicam o "mini conto" uns para os outros".

A pequena da foto, sob orientação de Cristina, já tem a destreza ao movimentar a tesourinha, para dar forma ao que ela pensa, dentro de seu mundinho literário. É muito prazeroso ver o processo criativo, nessa bonita fase de descobertas. Concordam?

Com os mais crescidinhos, não poderia ser diferente. Eles apreciam quando a tarefa nada lembra aquelas aulas sem propósitos, principalmente quando envolve leitura, interpretação, sem nenhum gancho criativo...

Percebam que com a dupla Cris e Adriano a história é diferente: ler, entender, interpretar e criar são verbos de ação aplicados com resultados instantâneos, uma vez que as tais oficinas ocorrem num curto espaço de tempo, porém muito proveitosa. É sinal verde para a criatividade...

É observada grande sinergia entre as oficinas de Adriano e de Cristina. E quem ganha são os autores, estando próximos de seus leitores. Deve ser bastante interessante ver sua obra desconstruída com o propósito de incentivar o ato criativo em alguém.

Foi o que presenciamos aqui, não foi? Fica evidente, também, o entrosamento espontâneo de crianças e adolescentes, diante da possibilidade de criar, criar e criar, bem diferente, bem mais interessante, do tal copiar, recortar e colar. O que acham? }


05/03/2010

SOLTANDO O LOBISOMEM... e... UM POUCO MAIS DE JUNG

Soltando o lobisomem...

Ontem, na oficina do ônibus-biblioteca, entramos no mundo sombrio (e também engraçado) dos lobisomens e de outras assombrações a partir do volume 1 de minha série "Contos Para Não Dormir", pela Biruta. O livro se chama "Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha" e sempre atraiu muito a garotada. Nele, André, um garoto de cidade grande que passa férias em um sítio, conversa com seu avô - durante uma noite fria - sobre as mais diversas assombrações.
A leitura foi coletiva. O livro foi manuseado, folheado, decodificado. As imagens chamaram a atenção. E houve trechos preferidos, que despertaram aquela deliciosa curiosidade que envolve e acalenta a leitura prazerosa.
Do trabalho com o objeto-livro, como um todo, passamos a conversar sobre os personagens, sobre sua construção e particularidades.
(As atividades têm sido frutíferas: há crianças que já estão escrevendo seus livros em casa.)
Do personagem, pulamos à persona: a máscara. Caminho inverso. Busca original: de onde tudo vem. Bendita a Hélade que nos deu tanto!
A possibilidade de se criar máscaras semelhantes aos monstrengos e sair por aí colocando pra fora as nossas "brabezas" de forma inofensiva é muito saudável mesmo. Todo bom psicólogo recomenda.
Principalmente quando se estuda em uma escola em que a professora, quando não tem criatividade suficiente para inventar uma lição de casa, decreta uma sentença de morte: escrever os números, letrinha por letrinha, de zero a dois mil, em infinita lista (foi o que o garoto da foto me contou). Gostaria de saber se ela ao menos se dá ao trabalho de corrigir tamanho disparate (sem aquela de simplesmente dar um visto borrado no canto do caderno e pronto). Ou se é pura tortura mesmo, daquelas que deixam calos no canto do dedo.
Não tem quem não queira virar lobisomem, concorda?

***

Um pouco mais de Jung...

O fenômeno ao qual Jung chamou de persona é de natureza coletiva. Usar uma persona nos facilita as relações com o estranho mundo social que nos rodeia e nos orienta quanto à decisão de qual papel assumir a cada momento. Assim, cabe a um atendente utilizar (mas nem sempre o faz) a máscara da cortesia e da disponibilidade, enquanto cabe a um representante da lei empregar a máscara da seriedade e da autoridade. Vemos, assim, que essa coisa de máscara não é de todo ruim, pelo contrário. Se não usássemos máscara alguma, o mundo seria um pandemônio maior do que já é em rudezas e violências de toda ordem.
Mas há pessoas que se descuidam das “máscaras” (plural, pois as que usamos são muitas) e se tornam infelizes em suas relações humanas: são aquelas que dizem o que pensam, quando querem, onde querem, para quem querem. Nada lhes parece mais genuíno, nenhuma necessidade lhes soa mais premente do que aquela de colocar para fora os desaforos que lhes vão dentro.
No teatro grego, persona era a máscara teatral, que escondia quem realmente estava agindo. O objetivo, além da melhor representação do personagem, era amplificar a voz aos ouvintes nas grandes arenas (personare = soar através de). Daí advém o termo “personalidade”, que é uma construção psíquica, também uma espécie de máscara – ou um coletivo desta –, parte de nossa pessoa. E aprendemos que é cuidadoso não julgar alguém pela personalidade, pois há quem só utilize máscaras rígidas, pesadas, inconvenientes, mas pode ocultar – e certamente oculta - uma leveza reprimida.
Poderíamos pular para um outro conceito do bom Jung, o de “sombra” – um dos mais interessantes, mas vou ficar hoje pelas beiras da persona. Está de boníssimo tamanho.

04/02/2010

"LER UM LIVRO DE VERDADE"



Quem me trouxe esta expressão hoje foi uma garota de quase 13 anos, moradora do bairro Vila Penteado, em São Paulo, durante a oficina que ministrei em um dos ônibus-biblioteca. Ela disse, após minha pergunta sobre um livro que tivesse marcado sua vida: “o primeiro livro de verdade que li... foi Odisseia, da Ruth Rocha”. E completou: “De verdade... quero dizer... foi o primeiro livro sem imagens que li.”
Ficou claro, pela sua expressão e discurso, que ela não estava desmerecendo os livros em que as imagens têm predomínio sobre o texto escrito. Ela estava justamente chamando a atenção para aquele grito silencioso de liberdade: a possibilidade criativa de desprender-se das imagens sobre o papel e navegar por si mesma, imersa no deleite das mil e uma possibilidades que o texto escrito lhe oferecia, como se o abandono dos livros com ilustrações simbolizasse um novo ciclo em sua vida: novas aventuras por vir. Eis a satisfação do sujeito equilibrado, que vivenciou todas as etapas do desenvolvimento – aquelas mesmas que os grandes nomes da psicanálise debateram, sobretudo Françoise Dolto, autora sobre a qual me debruço mais cuidadosamente nos últimos tempos. A criança que passou bem pelas fases de amadurecimento cognitivo e emocional pode ser tornar uma excelente leitora e produtora de textos. Colabora aqui, evidentemente, a estrutura familiar, mas acredito muitíssimo na profunda vontade e ímpeto do próprio sujeito.
Chega a ser inquietante: encontrar-se como sujeito também passa pela experiência aparentemente solitária de se ler um livro “só de texto escrito, sem ilustrações” – que desafio! E quantas imagens de sua própria verve aquela menina deve ter criado nos mirabolantes e saborosos percursos da augusta epopeia grega que escolhera como marco para sua trajetória de leitora mais amadurecida.
Ainda quero destacar duas outras participantes deste dia: uma menina de 9 anos, cujo livro paradigmático, até agora, foi Poliana, que ela leu aos sete, e uma moça de 22 cujo sonho é trabalhar de atendente em uma livraria (“um dia eu consigo, se Deus quiser”, ela me disse) e que lê muito. Seu livro marcante foi A cor da esperança, de Susan Madison, o qual ela alega não ter mais encontrado.
A gente tem mesmo uma relação muito afetuosa com os livros que passaram por nós e fizeram mais presença em nós (por motivos que não cabe aqui explicar).
Houve ainda a chegada de um garoto que mora nas vizinhanças do local em que o ônibus estaciona. Já o conhecia de outras idas minhas lá. No processo criativo de hoje, ele resolveu dar vida a alguns fantoches que ele mesmo fez, aos quais atribuiu poderes mágicos. Nada de bichos como temas, como os demais participantes fizeram.
O primeiro que ele criou foi um menino fantasma, invisível, mas com o fantástico poder do fogo. O menino já tinha morrido, mas continuava “do outro lado” ajudando as pessoas. Pelo que entendi, o personagem transmutava o fogo mediante sua vontade em benefício dos outros. Um herói. (Ah, o garoto tem vontade de ser bombeiro.)
Depois, ele ainda fez mais um fantoche, com o “poder das plantas” (provavelmente, poder de cura).
E ainda queria criar um herói para sua mãe, com algum poder que fosse útil para ela. E, quem sabe, um para seu pai... Até um para seu irmão, de dois anos, que acompanha a mãe nas atividades de diarista. De repente o irmãozinho gostaria de ter igualmente um poder mágico.
Esse "criador dos meninos superpoderosos" tem 9 anos e é um amante de livros. Já leu, por exemplo, os cinco primeiros do Harry Potter, e está aguardando os dois últimos chegarem às suas mãos.
Fico por aqui hoje: as histórias e os livros são terapêuticos. Não me canso de dizer que eles nos situam no mundo, e mais: nos ajudam a amenizar as agruras da vida e a encontrar saídas.
Viva a leitura! E viva Françoise Dolto!

***
Quer ler os mesmos livros que os leitores mencionaram hoje?
Aí vão eles:
MADISON, Susan. A Cor da Esperança. Planeta Editora.
PORTER, Eleanor H. Poliana. Ediouro.
ROCHA, Ruth. Ruth Rocha conta a Odisseia. Companhia das Letrinhas.
ROWLING, J. K. Harry Potter... (os sete livros da série). Editora Rocco.

02/03/2009

CRÔNICA TRISTE

Uma menina de uns dez anos chegou ao auxiliar de bibliotecário e disse:
- Não vou mais pegar livros. O que faço com minha carteirinha?
Eu não resisti em lhe perguntar:
- Não vai pegar livro hoje?
E ela:
- Não, não vou pegar nunca mais.
- Mas por quê? - insisti.
Insisti muitas e muitas vezes, ao ponto de a menina - emergindo de profunda timidez - me dizer num fôlego só:
- Porque minha mãe quer que eu fique ajudando ela a arrumar a casa...

28/02/2009

UMA FUNDAMENTAÇÃO PESSOAL PARA AS OFICINAS DO PROJETO ÔNIBUS-BIBLIOTECA


SUJEITO INTERATIVO: NEM PASSIVO, NEM ATIVO


Adriano Messias

Dentre os pensadores da Educação que mais aprecio está o sócio-interacionista Lev Vygotsky, que ainda merece ser muito estudado. Ele enfatizou a importância do meio social e da base cultural na estruturação da personalidade do educando. Sempre acreditei nisso e já escrevi sobre a intersubjetividade na formação do caráter e na estruturação das relações comunicativas entre as pessoas. Entendo que, no espaço que se constrói entre “um” e “outro” – espaço este sempre em transformação, híbrido e deslizante – serão solidificados os mais importantes valores e as experiências mais notórias da vida.

Vygotsky foi um educador que considerou a interação social e a dimensão histórica no desenvolvimento mental do indivíduo. Isso, em nossos dias, não deveria apresentar nenhuma novidade, pois há décadas vários estudiosos se empenham na abordagem social e histórica para a compreensão do ser humano e de suas interações. Mas o trabalho teórico nem sempre se casa com o exercício ou com a aplicação do pensamento na realidade.

Pensemos um pouco mais sobre as elaborações de Vygotsky: para ele, a construção do conhecimento é sempre mediada por diversos sujeitos, que agem sobre o que chamamos realidade, para, assim, nela interferirem. Esta experiência social no campo cognitivo originou o que ele chama de “zona de desenvolvimento proximal” – que se relaciona à distância entre o nível de desenvolvimento atual de uma criança para solucionar problemas sem ajuda de alguém com mais experiência, e o nível potencial de desenvolvimento – que é a capacidade de a criança resolver problemas com ajuda de pessoas mais experientes.

Aqui entra minha compreensão de oficinas em projetos como o do Ônibus-Biblioteca. Escrevi os parágrafos anteriores para que me faça ser mais bem entendido, pois o educador adulto é alguém que tem de colaborar para que a criança ou o adolescente crie novas atitudes em relação à realidade. Isso se faz por meio, por exemplo, do faz-de-conta, da brincadeira, do desenvolvimento de atitudes voluntárias, de motivações e até mesmo a construção de projetos de vida. Todo indivíduo – e aqui entendamos a criança, em especial – já traz consigo uma bagagem de conhecimento e experiências adquiridas, a qual pode ser entendida como a “zona de desenvolvimento real”. Estas experiências podem estar além ou aquém do que se estabelece como ideal para uma certa faixa etária em um certo universo sóciocultural. Por exemplo: um garoto de 10 anos que está no quarto ano do ensino fundamental, mas ainda não domina a técnica da leitura, está aquém do que se espera para um estudante brasileiro da mesma idade. Uma menina de dois anos que ainda não verbaliza nenhuma palavra parece estar aquém do desenvolvimento esperado em sua faixa etária.

Aqui surge o conceito da “zona de desenvolvimento proximal”: aquela em que há a necessidade de alguém mais experiente para ajudar, orientar, esclarecer o educando. E como esse alguém mais experiente pode contribuir? No brincar – pois é aí que a criança usará seu universo simbólico para construir seu mundo e seus valores. Esse brincar está presente em numerosas atividades: na leitura de um livro, no contato com um texto, na exposição a diversas obras literárias, musicais, plásticas... Brincando, ela aprende, ela reconstrói, ela negocia, ela refaz. Por isso me angustio quando percebo alguém oferecendo a uma criança um livro, uma história, um jogo, um brinquedo sem que o mesmo esteja relacionado a uma visão mais interativa entre os sujeitos.
Vygotsky entendia o brincar se transformando em desejo e prazer. Esta é a base para se fazer escolhas conscientes na vida dentro de uma postura ética, lidando com situações que depois irão se relacionar ao pensamento abstrato. Por isso defendo que, mais do que simplesmente brincar para se divertir – e oferecer uma brincadeira por diversão -, temos de entender que uma atividade serve para a construção da personalidade da criança e de sua inserção social e cultural em um mundo multifacetado, com diversas seduções, com caminhos tão antagônicos e díspares. Se não for assim, qualquer atividade com intenção educativa será inválida, será inútil, seja ela uma oficina, uma aula, uma visita a uma exposição.

13/02/2009

PROJETO ÔNIBUS-BIBLIOTECA



"Em vez de esperar em casa pelo seu público,
vai em busca do seu público onde ele estiver" (Mário de Andrade, sobre a Biblioteca Circulante - 1936)


O projeto dos ônibus-biblioteca é uma parceria da Prefeitura de São Paulo com a Libre – Liga Brasileira de Editoras. São quatro veículos em cor amarela, tendo no vidro interno do fundo a fotografia do primeiro carro a prestar este serviço à cidade. A idéia original foi implantada em 1936 pelo escritor Mário de Andrade, então diretor do Departamento de Cultura da cidade. O projeto foi vencedor do Prêmio Viva Leitura 2008 na categoria Bibliotecas Públicas, Privadas e Comunitárias.

O primeiro - Foi a Ford que construiu e doou um modelo de caminhonete-biblioteca que visitava periodicamente vários lugares da cidade, como o Largo da Concórdia, o Jardim da Luz e a Praça da República. O serviço foi interrompido em 1942 pela necessidade de racionamento de combustível na II Guerra Mundial.

Em 1979, mediante convênio com o Instituto Nacional do Livro, o serviço foi retomado com uma perua Kombi adaptada.

Desde então, apesar de períodos de interrupção do serviço, os ônibus-biblioteca têm circulado pela capital paulista levando um acervo de livros de literatura infantil, juvenil e adulta, obras paradidáticas, de saúde, sexualidade, gibis e revistas.